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PEQUENA HISTÓRIA
DE UM GRANDE NÃO-AMOR, BASEADA EM FATOS REAIS, COMO NUM
FILME AMERICANO PARA A TV, OU:
O DESLIZE
Outro dia o João, logo depois
de cruzar com a Maria, num desses encontros casuais da vida
e de trocar com ela, com desconcertada educação,
um "oi, tudo bem", percebeu-se a conversar consigo
mesmo:
- Meu Deus, a Maria, a minha não-namorada.
Quanta falta, às vezes, eu sinto dela! Que saudades daquilo
que foi tão pouco! Ao que, João se respondeu:
- Coversando sozinho, João? Mas
por que essa falta? Melancólico por que está por
perto o dia dos namorados, ou o seu aniversário, ou o
aniversário dela, ou o Natal, ou qualquer outra coisa?
E daí? O que poderia acontecer se a Maria fosse sua namorada,
e não uma simples não-namorada com quem você
cruza por aí, de quando em vez? Hoje em dia vocês
mal se falam!
- Ah, se ela fosse minha namorada, eu
poderia dizer a ela, como se fossem minhas, palavras de Vinicius
de Moraes : “o meu amor por você é como uma velha
canção aos seus ouvidos”. Ou, talvez, lhe sussurrasse,
como Amenófis IV à sua rainha Nefertiti, no Egito
antigo: “o meu amor, por você, durará tanto quanto
o eterno piscar das estrelas”.........
- Mas, João, se toca, ela é,
apenas, uma simples não-namorada, não há
como você falar isso a ela. E aí, como é
que você fica, como é que você vai tocando
a vida?
- Aí, eu não vou tocando
a vida. Não vou porque eu também não tenho
a voz da Elis Regina, pois que, se a tivesse, poderia cantar,
como ela, em “O Cantador”, de Dori Caymmi e Nelson Mota: “De
que serve o meu canto e eu, se, em meu peito, há um amor
que não morreu. Eu canto a dor, de uma vida perdida,
sem amor”.
- Meu caro amigo, que, por acaso, sou
eu mesmo, o João, mas que que papelão! Elis Regina?
Faça-me o favor! Além disso você não
está sendo nada original, usando falas de outros. E saiba
você, também, que o homem só não
é ridículo quando diz determinadas coisas, como
essas que você está falando, quando as diz para
a sua namorada, na vida ou na despedida. Não se fala
coisas dessas a uma simples não-namorada, que, acho até,
nem se importa tanto assim com você!
- Olha, vendo as coisas por esse lado,
acho, até, que você tem razão e percebo
o deslize deste escrito meu. Mas é que, ao contrário
do que eu disse acima (ou disseram por mim), em meu peito, na
verdade, existe um amor que eu ainda não vivi. E é
por ainda não tê-lo vivido que, mesmo que eu queira,
e eu já o quis tantas vezes, não me morre a esperança
de que um dia a Maria, por distração ou tentação,
por piedade ou por vontade, por desamor ou por favor, como benção
ou consolação, se lembre deste pobre João
e conceda-me, enfim, a ventura de um pequeno (ou grande, ou
imenso, mas infinito) deslize seu.
Aí o João se calou, não
se disse mais nada, guardou, de novo, todos aqueles desperdiçados
sentimentos, num canto próprio de sua alma e seguiu o
seu caminho. E se foi, não-alegre e não-faceiro,
sabendo, sem saber, que num outro encontro casual, toda essa
pequena história, de novo iria ser contada. É
que, se essa história é pequena e curta, essa
história também não tem como acabar, pois
só à Maria foi dada aquela pena de ganso, aquela
caneta tinteiro, aquela caneta esferográfica, aquela
máquina de escrever, aquele teclado de computador que
possuem o poder de determinar e de escrever o ato e a palavra:
FIM |